Opinião

LUTO pela Cultura, pela Ciência, pela História

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Sras e Srs,
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Eu, Ângela Viégas – Bailarina Profissional, Coreógrafa de um Grupo de Dança amador, Professora de Dança – Ballet Clássico e Dança Flamenca, Diretora de um espaço de dança das modalidades referidas, Incentivadora e “Fazedora” de Cultura, nascida no Brasil e natural do Rio de Janeiro, RJ peço licença a todos. Desde já também peço desculpas a quem se sentir, de certa forma, agredido pelo que escrevi mas devo lembrar que não é uma pessoa que “tem direito” mas todos os têm. Assim como temos os nossos deveres. Sempre bom lembrar o que aprendi em casa e foi reforçado na escola: Meu direito termina aonde começa o direito do outro e Direitos e Deveres caminham juntos, assim como a liberdade e responsabilidade.
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Trabalhar e se dedicar 100% a cultura por aqui é algo extremante difícil e muitas vezes frustrante. O querer fazer, o saber como fazer e não conseguir fazer é um embate que muitas vezes me vejo. Trabalhar com a Cultura no Brasil e no Rio de Janeiro é ativar a sua criatividade em tempo integral.
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Lutar contra um sistema e contra uma “cultura” instalada do “empurrar com a barriga”, do “dar uma tapeada”, “dar um jeitinho” , “sextar” , “feriadão”, do “deixar acontecer para se movimentar” … é bem exaustivo, poderia assim dizer.
Quero deixar claro aqui que não me refiro a políticos. Políticos são pessoas q representam os hábitos desse lugar. Falo de pessoas em geral e seus hábitos e costumes.
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Com o terrível incêndio no Museu Nacional, não falarei em números etc porque isso já está sendo dito, vejo que só reforça o meu pensamento de quanto é difícil trabalhar com cultura neste país, mas antes ainda digo nesta cidade.
 Falta dinheiro?  Sim, mas falta amor, responsabilidade e compromisso não só dos governantes mas também do povo. Cada um fazendo ou deixando de fazer em sua proporção.
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Srs pais, pelo amor q vocês tem pelos seus filhos (ou deveriam ter), tirem-os da frente das telas de celulares e vídeo games. Vocês tem responsabilidade em instruí-los dando e criando oportunidades de conhecimento  e  ainda tem responsabilidade em formar o caráter de um ser.
Srs pais, tirem o rosto dos celulares e deem atenção aos seus filhos.
Seres humanos, deem atenção a pessoa q está ao seu lado.
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Prioridade: às vezes chego a pensar se realmente existe tamanha crise que se fala já que para tantas coisas não pode-se fazer. Para ir ao teatro não pode, para fazer um curso não pode mas consegue garantir a bebidas de todo o fim de semana ou ainda comer em lugares caros , fast food. Ah, mas se enganam os srs q queriam falar q ter acesso a cultura é caro. Sim, tem mutas atividades com valores q não são compatíveis com o poder aquisitivo das pessoas que aqui vivem mas existem uma diversidade de passeios e atrações culturais com valores bem acessíveis ou gratuitos. Basta buscar, e olha, não será difícil encontrar.
Q  tal deixar de ir todas as vezes a “churrascada” e “beber” para ir a um museu, alguma peça de teatro, a dar acesso a cultura e ao conhecimento. Já pararam para pensar que o valor de algumas latinhas de cerveja toda a semana, pagaria passagens de um evento gratuito, ou ainda daria para ir a um evento pago?
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Um vez escutei um ditado que não consigo me lembrar mas dizia algo como: se o quentinho do inferno está gostoso,ou dando lucro, por ali ficamos acomodados.
É institucionalizado a emenda de feriados, não trabalhar nas sextas porque já é sexta (oi?!) Não vai na segunda porque veio do fim de semana , Como as pessoas conseguem tantas “folgas”?
Uma vez escutei no transporte público uma senhora falar ao telefone (impossível não escutar devido a altura da voz e a proximidade) que não ia mandar a criança para a escola na quinta pq era feriado na sexta! OOiiiiii?!
Você acha absurdo? E que tal o que já se fala da 5ªf de Carnaval antes da 3ªf de Carnaval? Do que se falar q as pessoas só começam a levar a sério as coisas mesmo que o Carnaval só seja em março e você tem 2 meses inteiros antes, ah sim, mas só retornam mesmo em abril porque março tem carnaval.
E reclama-se de tudo do governo (mas quando dá ponto facultativo tá beleza, né?), do lixo, do tempo, do que está errado, do que supõe-se errado porque não está lhe beneficiando…
Acho engraçado pessoas que reclamam de regras de lugares, porque não é feito a vontade de cada freguês para q haja uma organização mas se houver qualquer coisa serão exatamente esses os primeiros a dizer q o local é uma bagunça.
Acho engraçado usarem tanto os “países estrangeiros” como exemplo do que acham interessante mas não veem o lado da responsabilidade, trabalho, disciplina e união das pessoas tem para um mesmo propósito para se chegar isso.
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Essa semana tive a certeza q a única coisa q não se tem solução é para a morte. Para qualquer outra coisa há solução basta querer fazer acontecer. Muitas vezes podemos não solucionar mas podemos amenizar ou melhorar. Repito, basta QUERER FAZER ACONTECER.
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Me senti agredida com a perda irreparável deste patrimônio. Na noite desta tragédia só consegui escrever:
LUTO
PELA CULTURA
PELA CIÊNCIA
PELA HISTÓRIA
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Colegas,
ESTOU CANSADA de lutar contra a maré.
Estou cansada da falta de compromisso, de responsabilidade e respeito.  Infelizmente constato que as pessoas não querem aprender, não querem conhecimento.
Estou cansada da superficialidade das pessoas. Do dizer o quanto ama algo mas se houver esforço ou compromisso ou ainda um “Choppinho” naquela mesma hora, o amor passa. Então a impressão (certeza): façamos algo só p tirar foto e postar. Como diria a Monja Cohen: “não é bonitinho?”
Sejam por inteiro! Errem mas errem por inteiro porque tentou acertar!
O que me segura de vez em quando é ver como muitos conseguiram chegar e fazer algo com pouco. Tenho absoluta certeza q a luta não foi fácil e não está sendo fácil para manter. Nos últimos anos confesso q pensei em desistir de determinados pontos. Até ontem ainda pensei.
Sempre me perguntam porque não fui morar fora do Brasil, ou do Rio. Apenas as pessoas próximas sabem que não gosto do Rio de Janeiro. Do Rio apenas sua arquitetura do Rio antigo e belezas naturais e nada mais.
Sempre disse, sou brasileira e, principalmente, carioca apenas por engano, a cegonha passou por uma turbulência e caí aqui.
Por outro lado sempre achei:
1) muito cômodo as pessoas reclamarem do local que estão e não fazerem nada p mudar
2) as pessoas reclamarem de uma situação mas muitas vezes são elas mesmas q geram isso
3) não estão satisfeitas e se mudam
Quanto a terceira opção, penso: nasci no Brasil, no Rio de Janeiro… é fácil dizer q está tudo horrível e tchau. Desculpe-me mas em qualquer lugar do mundo haverá problemas e conflitos se você não perseverar. Portanto sempre pensei se não está bom, pois então ficarei ali para melhorar e não o deixar.  Difícil? MUITO. Só posso fazer dentro da minha alçada. Quem tem mais  poder pode fazer coisas maiores mas cada um pode fazer um pouquinho se quer.
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Com educação de casa (a famosa educação para uma boa convivência e respeito se aprendem em casa!), a educação formal e  a cultura transformam-se pessoas, que transformarão lugares, que transformarão nações, que transformarão o mundo.
Sonhadora? Pode ser. Sou artista, me dê a licença poética . Quero tentar segurar o mísero fio q ainda me faz crer no significado de ser “humano”.
Quem tem os mesmos pensamentos de darmos as mãos, que consigamos seguir em frente com a nossa missão mesmo às vezes nos sentindo lutando sozinhos. Nós não estamos. Não somos os únicos. Existem milhares pensamentos iguais (ou similares, mas com o mesmo propósito) só q estamos espalhados. Vamos usar essa maravilhosa tecnologia avançada para melhorarmos como um todo. Não egoisticamente pensando só no seu.
Somos um só. Se ferimos o outro, a natureza, nossa história, ferimos a nós mesmos. Estamos aqui para evoluirmos juntos. Cada um em seu ponto mas todos juntos.
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Eu, Ângela Viégas, estou de LUTO pela Cultura, pela Ciência e pela História. Tudo é uma coisa só.
 Fiquem bem.
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Rio de Janeiro, 03 de setembro de 2018.
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